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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

60 anos de catástrofes registradas

“Em 1949, Hilgard O’Reilly Sternberg, professor da antiga Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, publicou um estudo bem elaborado sobre um episódio de chuvas torrenciais ocorrido em dezembro do ano anterior na Zona da Mata de Minas Gerais, e que desencadeou um processo de desestabilização generalizada em toda a área. Inundações, avalanches de lama, assoreamento de vales e, formação de voçorocas, além de vários danos à economia e aos estabelecimentos humanos foram as pesadas consequências daquela catástrofe natural, a qual poderia, contudo, ter sido atenuada se no processo de ocupação tivessem sido observados critérios mais racionais, conforme demonstra o autor em seu trabalho (STERNBERG, 1949). 
Durante três dias (15,16,17 dezembro de 1948), a região situada à margem do rio Paraíba do Sul e abrangida por um triângulo, com vértices nos municípios de Além Paraíba, Leopoldina, e Pirapetinga em Minas Gerais foi assolada por precipitações violentas, tendo um dos pluviômetros (o de Volta Grande) sido destruído pela própria enchente. Baseado nos indicadores ambientais exibidos após a calamidade, o autor estima que a área nuclear deve ter sido castigada por mais de 400 mm de precipitação em apenas 24 horas. O número de vítimas fatais chegou ao espantoso número de 250.”
Conti, José Bueno. Resgatando a fisiologia da paisagem. Revista do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, n. 14, p. 61-62, 2001.
O trecho acima do autor José Bueno Conti, em 2001, revelava a instabilidade dos terrenos brasileiros, principalmente na costa leste, problemas esses que já em 1949, eram registrados através dos estudos de Sternberg. De lá para cá, meia década se passou e os mesmos problemas são registrados por toda a costa brasileira, uma área tectonicamente instável, com constantes deslizes causados não somente pela ocupação ilegal, desenfreada e inadequada, no topo e no sopé das vertentes, mas também por processos naturais, águas das chuvas e a própria instabilidade devido aos movimentos coletivos do solo.
Até aí já conhecemos, há a geologia, os perfis de solos, limites de saturação, sabemos que as áreas, uma vez ocupadas, oferecem grandes riscos, mas o que impressiona nas tragédias que anualmente se repetem no Brasil é o descaso do poder público que se omite diante dos fatos.Tal omissão começa na legislação, pois o país possui milhares de leis ambientais, mas nenhuma cumprida de fato com relação às áreas de ocupação, nada é fiscalizado, a começar pelas florestas que estão sendo convertidas em áreas luxuosas, e a terminar pelos rios e vales, onde a população se instala em massa.
No plano das esferas governamentais não há esforços, não há políticas reais de habitação, digo real porque os programas que conhecemos estão longe da realidade de uma gigantesca parcela da população, aqueles que recebem salários mínimos, e que são milhares, não participam de programas, pois a renda necessária não contempla essa parcela. O que resta à população então, senão ocupar aquilo que mesmo sem qualquer infraestrutura, de certa forma oferece “um abrigo”, e o que muda em 60 anos desses registros?
Ano – População
1940 – 41.236.315
1950 – 51.944.397
1960 – 70.191.370
1970 – 93.139.037
1980 – 119.002.706
1990 – 146.352.150
2000 – 169.544.443
A população brasileira praticamente quadruplicou, somávamos em 1950 um total de 51.944.397 de habitantes, hoje, após o censo, registramos 190.732.694 milhões de pessoas (IBGE, 2010), a maioria vivendo na costa leste, desde o norte até o sul do país.
Diante dos dados apresentados, não se registram políticas que acompanhem o crescimento populacional, e nem é feito planejamento adequado e que garanta urbanidade à população.
O senso comum definiu a paisagem como uma área natural, como natureza, e com toda a razão o conceito é esse, mas as formas de ocupação e o poder de transformação humano redefiniram o conceito de paisagem para a geografia, hoje definida como uma associação de elementos naturais e humanos, o homem transforma a natureza, mas não detém poder sobre ela, e essa velha máxima prevalece.
Aspecto da Serra do Itapeti, ao fundo, região de Mogi das Cruzes SP: a paisagem delimita o vale presente entre o sopé de duas vertentes denunciando a presença dos mares de morros. Fotos Gomes, 31/11/2008



O corte na vertente e as clareiras com terra exposta revelam a dinâmica das vertentes e os movimentos coletivos de solos na Serra do Japi, região de Jundiaí - SP. Fotos Gomes, 31/11/2008.




A própria construção de estradas cortando o interior de SP demonstra o poder humano de interferência na paisagem. Na foto exposição de rochas alteradas e formação de solos. Fotos Gomes, 31/11/2008.


A exposição do solo em curvas de nível à esquerda diminui a velocidade das águas das chuvas interrompendo o processo acelerado de erosão nas vertentes, o que acarretaria uma maior perda de solo e consequente deslize de terra a caminho de Parateí - SP. Fotos Gomes, 31/11/2008.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fisiologia da Paisagem: algumas definições

Fisiologia – parte da biologia que investiga as funções orgânicas e processos ou atividades vitais.
Paisagem – espaço do terreno que se abrange num lance de vista. Pintura, gravura ou desenho que representa uma paisagem.

Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

A palavra paisagem tem significado geográfico, pois paisagem é o espaço e o espaço é o objeto de estudo nos campos da geografia, é discuti-lo, assim como as relações espaciais. A palavra fisiologia, mesmo o dicionário indicando como parte da biologia, tem significado geográfico, pois fala em processos vitais, de vida, e que também é do campo de estudo da geografia.

A expressão “Fisiologia da Paisagem não existe no dicionário, pois o dicionário apresenta apenas palavras e mesmo na definição de fisiologia e de paisagem, a expressão fisiologia da paisagem não aparece.

Em termos geográficos, pode-se definir Fisiologia da Paisagem como o estudo de um espaço qualquer visto, observando-se as dinâmicas, as interações, relações ocorridas entre a natureza e a ação do homem. É a integração entre os objetos naturais e mais a relação espacial do homem com o lugar, pois em cada espaço há uma dinâmica e que precisa ser estudada para a definição desse espaço. A Fisiologia da Paisagem não deve ser definida apenas como um espaço natural, pois deve considerar elementos humanos contidos na paisagem, pois o homem é um grande transformador da paisagem.

A Fisiologia da Paisagem é designada para uma disciplina do curso de geografia porque discutir o espaço é o objeto de estudo da geografia, discutir as relações existentes ali, alterações, transformações, não só as de ordens naturais, mas as transformações que passam também pela mão do homem e que tornam aquele espaço único.

Paisagem, analisando definições de Bertrand e Saramago

A Paisagem pode ser definida de várias formas. Ao senso comum nada mais é que uma vista natural. Diversos autores definem paisagem segundo as suas concepções e em geografia pode ser definida como um espaço qualquer dotado de elementos naturais e humanos.

Bertrand aborda uma problemática na definição da expressão paisagem. Segundo ele, não há uma definição exata de paisagem e há ainda o fato de ela ser pouco utilizada ou utilizada de qualquer forma. Aponta ainda que a palavra paisagem é trocada pela palavra “meio”, onde segundo a definição do dicionário, a palavra meio expressa muito mais um ambiente geográfico do que a própria palavra paisagem pode definir.

Bertrand faz uma crítica ao fato de não haver o domínio das ciências, além de haver poucas pesquisas sobre o termo paisagem. Aponta também que a climatologia não possui uma definição exata. Ele alerta para um erro comum que é o de definir paisagem apenas como elementos da natureza, apenas natural, não incluindo as ações humanas que estão contidas na paisagem. Define paisagem como um espaço determinado combinando elementos físicos, biológicos e antrópicos, ou seja, uma dinâmica entre esses três elementos que vão resultar em um conjunto único e indissociável definindo as características desse espaço.

Algumas considerações sobre a obra Levantando do chão do autor José Saramago, romancista português, aponta a quantidade de paisagens que existem na terra, mesmo que com pouca ou muitas cores e de várias formas. Diz que paisagem é anterior ao homem e é muito diversificada, tem paisagem de todo tipo e alterações corriqueiras na natureza como troca de cores, de climas, calor, frio. Fala um pouco dos processos ocorridos quando há a morte de animais, o cheiro, a decomposição, os ossos, a ação da natureza sobre a carcaça, chuva, a ação do vento, do sol e da chuva. Fala também sobre os motivos que levam o homem a morrer, ou fome, ou doença, ou calor, ou frio, não exposto como os animais, mas com o mesmo fim. Saramago cita a ocupação humana depois da paisagem, uma redução no tamanho, o latifúndio, o uso da enxada, o arado, os senhores, o reino, o uso da terra.

Há relação entre os textos, pois ambos tratam de paisagem, mesmo que em maneiras diferenciadas, com elementos naturais e elementos humanos. O texto de Saramago inicia descrevendo a diversificação de paisagens e citando cores e formas, também os processos que ocorrem na natureza como a decomposição de animais mortos e a ação do sol, vento e chuva. No inicio, a definição de paisagem é de uma paisagem natural, no desenrolar do texto, Saramago acrescenta elementos típicos humanos e que vão alterando a paisagem inicial como, a diminuição da terra, a criação de latifúndios, o trabalho da enxada e o arado, a modificação da paisagem. Já o texto de Bertrand também fala de paisagem e praticamente define como um espaço em que há elementos naturais, físicos e biológicos, e os elementos humanos que alteraram essa paisagem e juntos vão caracterizar o lugar como único. Saramago descreve paisagem ao longo do texto e acrescenta a transformação da paisagem pela ação humana e Bertrand, embora não cite quais ações humanas são transformadoras da paisagem, é mais definidor da palavra paisagem e alerta para o fato de que ela não pode ser considerada apenas a imagem da natureza, tem que se observar elementos antrópicos que alteraram essa paisagem.

O texto de Saramago descreve o conteúdo de uma paisagem enquanto que o texto de Bertrand define o que é paisagem, com elementos naturais e humanos, diferentemente do dicionário que não tem sentido geográfico (espaço de terreno que se abrange num lance de vista. Minidicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001). O dicionário apenas descreve a palavra paisagem como o ato de olhar um local, mas não cita o que podemos observar nessa paisagem. Já a palavra fisiologia, segundo o dicionário, é parte da biologia que investiga as funções orgânicas e os processos ou atividades vitais. Nesse contexto, o texto de Saramago tem semelhança com o dicionário, pois aponta alguns processos como a morte de animais e do homem, a ação de elementos da natureza sobre eles. O texto de Bertrand também possui semelhança com a definição do dicionário, pois aponta processos físicos e biológicos como parte, elementos contidos na paisagem.

Referências Bibliográficas

BERTRAND, G. Paisagem e Geografia Física Global: esboço metodológico. Caderno de Ciências da Terra13. Instituto de Geografia-USP. São paulo, 1971.

SARAMAGO, José. Levantando do Chão. 3° edi - Lisboa: Caminho, 1982.

Paisagem, analisando as definições de Bueno Conti

O autor José Bueno Conti em sua obra Resgatando a Fisiologia da Paisagem exalta a geografia como sendo do domínio das ciências humanas e das ciências da natureza, isto porque além do objeto de estudo da geografia que é o espaço, tem que se considerar as transformações ocorridas nesse espaço, estudos inseparáveis, missão essa dos geógrafos, geólogos, biólogos, entre outros, contribuindo com estudos que cada vez mais relaciona o homem à natureza e a natureza ao homem sem prejuízo de uma das partes.

A respeito dessa idéia, o autor levanta o trabalho feito pelo Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, em 1968, no qual a partir dos trabalhos do Professor Aziz Nacib Ab´Sáber implantou-se a disciplina de Fisiologia da Paisagem, com a intenção de se estudar inicialmente os fatores climáticos pouco ocorrentes e a ação humana, essa, considerada uma grande modificadora da paisagem de um determinado espaço.

Posteriormente, em 1988, a disciplina seria alterada para Teoria Geográfica da Paisagem. A mudança não acarretou grandes transformações, basicamente em um primeiro momento, a implantação da Fisiologia da Paisagem objetivava a compreensão da paisagem, principalmente em ambientes tropicais, o estudo dos elementos constituintes dessa paisagem e discussões das ações humanas interferentes da mesma. Com a substituição da disciplina, permanecem discussões sobre a paisagem, as integrações da ordem física e biológica mais pontos sócio-culturais, permaneceria ainda as discussões sobre ações antrópicas, mas o diferencial seria a questão da degradação ambiental na paisagem, até então um objetivo pouco questionado em Fisiologia da Paisagem.

Pensando na compreensão dos ambientes tropicais, objetivo de estudo da Fisiologia da Paisagem uspiana, e na distribuição energética de acordo com as latitudes, muito presente nos pensamentos gregos antigos, por tanto anteriores à geografia, José Bueno Conti aborda a importância dos estudos das relações humanas mais natureza nas zonas intertropicais, especificamente nas baixas latitudes, isto porque 40% da população mundial oculpa essas terras expostas a cinco vezes mais raios solares e recebendo três vezes mais calor latente concentrado sobre os oceanos em comparação às altas latitudes, acima dos 60°.

O autor aponta ainda, a territorialidade do Brasil nessa faixa intertropical, 93%, onde favorecido pela natureza, enfrenta a exploração da mesma, então ocorrendo problemas de desmatamentos, voçorocas e perda de solos que geram desequilíbrios e mudanças na paisagem. Exemplifica as Serras do Mar e da Mantiqueira onde o índice pluviométrico em torno de 1200 mm/ano ocasiona uma desorganização econômica e social gerada pelo deslizamento de terra nas vertentes, expondo as interferências que o clima e o homem causam na paisagem de um determinado espaço.

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